John Piper não é quem vocês pensam

Estive no “Juntos em Cristo” lá no Riocentro. Entrei e logo comprei um livrinho pra prestigiar. A organização estava ótima! Ninguém queria aparecer mais que o outro, todo mundo teve voz e a FIEL detonou ao trazer John Piper para falar sobre alegria para os brasileiros.

Confesso, estava esperando um gênio estrondoso sacudir o Riocentro. Ao contrário disso, vi um coroa humilde e contrito subir a plataforma e falar das verdades da Bíblia com uma clareza fantástica. Nada novo, nada diferente. Tudo que Piper falou estamos cansados de ler na Bíblia, mas não aplicamos na vida.
Piper não é gênio. Não é um superhumano, nem tampouco uma espécie de messias dos crentes considerados “sérios”. É apenas um crente genuíno que expõe a Palavra e que se dispôs a ser relevante. Ele me mostrou que qualquer um pode pregar bem!  Como disse meu amigo João Costa “numa sociedade onde todo mundo quer ser gênio, estrela ou o melhor” John Piper prefere ser só um homem que vive o que prega. E isso faz dele o maior expoente da pregação cristã de nossos dias. Só isso!
E no mais, tudo na mais santa paz!
Márcio de Sousa
Retirado do site do próprio autor
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Agradecimento eterno

Estava num retiro de minha igreja. O ano era 1997. Era num sítio em Xerém. Fazia frio. Apesar da baixa temperatura, meu coração estava queimando. Queria mais da parte de Jesus. Não sabia por onde começar. Havia sido convertido pelo Senhor em outubro do ano anterior e estava preocupado em não me perder no reino “encantado” da igreja.

Tinha poucos referenciais. Lembrava de um amigo querido que sempre me falou para ter cuidado com os livros que chegassem as minhas mãos pois existia muito maluquice no meio evangélico.

Naquele retiro resolvi abrir meu coração com o querido Emmanuel, que tornou-se um dos grandes amigos que tenho. Cheguei tímido até ele. E me abri dizendo que queria mais de Jesus, mas tinha medo de me aventurar pelo caminho da literatura teológica e encontrar coisa que me fizessem mal.

Lembro até hoje. Sentados na varanda, ele se levanta e fala que vai pegar um livro. Ele volta com o livreto “Crer é também pensar” do John Stott. E me falou: “Leia tudo que puder deste cara!” Conselho dado, sigo o rumo.

Li tudo que pude do John Stott. Sempre.

Inclusive no primeiro semestre de 2011 ao me perguntarem qual classe de EBD gostaria de ministrar, sem muitos titubeios falei que queria falar sobre o Sermão do Monte. Como base usei Lloyd-Jones e Stott. Na verdade, 80% do curso foi baseado no comentário dele sobre esta porção do Evangelho de Mateus.

Ontem soube da morte deste santo homem de Deus. Não contive as lágrimas. Parecia que tinha perdido parte de mim. Como se um amigo próximo tivesse morrido. Lamentei e senti aquela dor que a morte traz ao coração de todo homem que sabe que não fomos feitos para a morte.

Hoje a eternidade deu as mãos ao amigo que nunca tive oportunidade de encontrar. Jesus o chamou para o descanso. Um dia Ele me chamará também. E terei a oportunidade de conversar face a face com Stott, num papo gostoso e sem termos a mancha do pecado que habita em todos os homens.

Louvado seja o Senhor! 

Free hugs

Muitos já escreveram sobre o papel da afetividade no relacionamento. Não importa qual nível de relacionamento, um simples abraço desperta um gama de sentimentos que nem a mente humana pode conter.

Não é a toa que em tempo de isolamento, campanhas como o free hugs, os famosos ‘abraços grátis’, fazem sucesso em paises de culturas tão dispares quanto Brasil e Japão. Há uma espécie de ‘cultura do eu’ acima de qualquer funcionalidade que um realcionamento possa exercer. Vivemos tempos de I-pad, I-pod e afins. O eu tem comandado tudo, a solidão a dois se solidifica.

A igreja neste sentido expõe o fato de tão imersa na cultura em que vive, repete todos os sinais de sua sociedade. E isto acontece, querendo nós ou não. Não é raro as pessoas ficarem em igrejas durante anos e nunca ao menos serem inseridas na comunidade. Não é difícil ouvir casos em que membros de igrejas buscam na comunidade uma espécie de bunker que os protejam do outro. E tudo isto em meio a comunidade!

Coisas como estas, que muitos lideres querem esconder embaixo de acarpetadas catedrais, acontecem e acabam por demonstrar o óbvio: estamos deixando de viver a igreja como comunidade!  A igreja deve e muito ultrapassar o fato de ser uma reunião de pessoas de culturas diferentes que se isolam em guetos dentro do próprio gueto. A argumentação isolacionista, que parece querer perpretar a inutilidade da vida comunitária da igreja, não consegue perceber que isto na verdade é uma aniquilação do porque existe a própria igreja.

Todos os dias da semana pela manhã em minha igreja acontece uma reunião de oração. Lá uma irmã querida, que com seus mais de 80 anos de idade, consegue encarnar em seus passos pequenos e firmes o ideal de afetividade comunitária. Um simples abraço daquela querida irmã, traz consigo uma vontade de repetir com todos os outros irmãos da fé aquele gesto. Um abraço encorpado de amor, cuidado e carinho sinceros. Um simples e profundo abraço. Hoje pela manhã uma outra senhora que ainda estava sob o luto da perda de seu querido marido foi abraçada de uma forma terna por esta querida irmã. Apos o rolar de uma lágrima, esta senhora falou: “Querida, como eu gosto de ser abraçada por você. Quando você me abraça me sinto consolada por Jesus.”

Fiquei parado diante de tal cena. Minha mente e coração entraram em ebulição por começar a refletir se meu carinho e cuidado por meus irmãos chegam aquele nível de simplicidade e verdade de um mero abraço. Lembrei-me das palavras de nosso Senhor de que ele está conosco até a consumação dos séculos. E como creio que Ele esta conosco, será que eu tenho sido um expressão do Amor dEle por mim aos meus irmãos?

Será que o afeto que tenho por eles tem sido verdadeiro e expressão de minha comunhão com Cristo? Ou tenho sido mero repetidor da cultura do eu, deixando de ser benção na vida de tantos que precisam ser consolados, amados e encorajados viverem a sombra de Cristo?

Estas respostas vou aprendendo e caminhando.

E te convido a caminhar esta estrada COMIGO pois cristianismo se faz junto!

Nunca separados!

The book is on the table…

Hoje fui até uma livraria católica a procura de um livro. Chegando na livraria fiquei procurando o livro e ao mesmo tempo pesquisando novos títulos. Em determinado momento o vendedor e uma cliente estavam conversando alto, bem ao meu lado e não pude deixar de ouvir a conversa.

A senhora estava a procura de um livro e um cd de um padre. Na loja não havia nenhum exemplar dos produtos procurados por ela. Ela seguiu perguntando onde havia outra livraria católica onde poderia adquirir o que tanto queria. O vendedor informou que aquela era a única livraria católica da cidade. A idosa lamentou o fato e ainda argumentou que havia um monte de livrarias evangélicas e somente uma católica. Ai, o vendedor falou com desdém: “E nas livrarias evangélicas a senhora só vai encontrar Malafaia, Edir Macedo e similares!”

Ai, não me contive. Tentei, confesso, mas não me contive e tive que intervir na conversa de forma carinhosa e amável: “Só uma coisa: realmente tem muita porcaria nas livrarias evangélicas, mas nem tudo se resume a estes que você citou. Tem coisa boa!”

A senhora respondeu afirmativamente, concordando com minhas palavras. O vendedor fechou a cara e simplesmente respondeu que a senhora não acharia o que procura por lá. Sorri e continuei a minha procura na loja. Não era caso para discutir, mas de informar.

Fiquei pensando logo depois sobre a afirmação do vendedor. Realmente ele não deixou de ter razão no que ele falou. Há milhares de livros que prejudicam muito a fé de tantos que sinceramente se achegam ao Senhor. Há que se ter muito cuidado quando se entra numa livraria evangélica. Muitos compram a lista dos “10 mais” e deixam de se aprofundar em sua fé porque só procuram os ‘ventos de doutrina’ que abatem a igreja atual.

Só que ao mesmo tempo, numa simples visita podemos adquirir obras de gente como J.I. Packer, John Stott, Eugene Peterson, Richard Foster, William Hendriksen, Martin Lloyd-Jones, Jürgen Moltmann, Allister McGrath, Karl Barth, João Calvino e tantos outros autores que me auxiliaram a perceber que a fé cristã é prática e profunda.  Entre os brasileiros temos em muitas estantes nomes de peso como Ricardo Barbosa, Russel Shedd, Robinson Cavalcanti, Ariovaldo Ramos, Heber Campos, Augustus Nicodemus, Renato Vargens e outros tantos!

Homens que regaram as raízes da fé de tantos homens e mulheres de Deus na história da igreja. Que em seus escritos nos inspiraram a sermos mais parecidos com nosso Senhor. Temos estes e tantos outros escritores que estão em algumas estantes nas livrarias evangélicas, mesmo que num canto escondido, auxiliando a nossa caminhada cristã. Infelizmente, não estão na lista dos mais vendidos, mas estão lá a disposição de quem possa adquiri-los.

Lembro sempre de uma frase: “Livros não mudam o mundo, mudam pessoas”. A cada dia estou convicto disto! Se em nossas livrarias a coisa não está fácil, isso não quer dizer que não há nada bom. Sempre há! Basta procura, pesquisa e conversa com pessoas mais experientes na fé. Antes de comprar, não custa nada perguntar.

Bom, é isso!

Feliz Natal a todos!

Enquanto caminho…

Tenho pensado muito sobre a maturidade. Acho que aos 34 anos comecei a ver a vida de outra forma. Não que tenha me tornado um expert em maturidade, muito pelo contrário. Só que algumas coisas tem que inquietado.

Sei que para muitos este estágio chega antes. Para outros a vida tem sempre ar de brincadeira, com as infantilidades que não são mais cabíveis em virtude da avançada idade.

Maturidade não é algo fácil ou mesmo instantâneo. Vai se chegando como num vinho que com o tempo torna-se encorpado. Os sabores vão se tornando mais nobres e o frescor se mantém. Isso só com o tempo, muito tempo.

Não sei porque brigamos muito com a maturidade. Provavelmente é porque muitos a tem como sinônimo de velhice, cabelos brancos ou coisas que se pareçam com a imagem já a tanto desenhada do que seria um homem ou mulher madura.

Só que muitos lutam com garras afiadas contra esta fase da vida. Acham-se imortais, mitos ou acima de qualquer forma de sabedoria que só o tempo pode dar. Acreditam estar no patamar de seres sagrados, que tem a vida como sua criação e moldura. Esquecem que qualquer queda tudo vai à ruína.

Pego-me sentado na cama vendo no espelho meus ainda ralos cabelos brancos e chego a conclusão que a vida passa e o que passou passou. Não adianta querer viver o que já passou. Ai tenho que concordar com o filósofo: não há como passar pelo mesmo rio duas vezes. As águas são outras. A vida é outra!

Seria até mesmo absurdo eu querer voltar a vestir-me como punk que era em minha adolescência. Ou mesmo acreditar nas doutrinas socialistas em pleno século XXI. Ou mesmo acreditar que as pessoas de minha juventude fossem melhores do que as de hoje.

A vida segue. Cristo me converteu há exatos 13 anos… Muita coisa já rolou. Ele resgatou este cara com barba grisalha de apenas 34 anos. Não tenho porque olhar pra trás mas seguir em frente, sabendo que o melhor ainda esta por vir. Que Ele comanda minha vida e tem todos os meus dias contados.

Olho para o meu lado e vejo como sou feliz. Minha esposa me completa. Não sou rico e nem tento sê-lo. Não tenho porque viver a vida querendo ser um Peter Pan como tenho visto em muitos cantos.

Acredito que cada fio branco não é pigmento de meu cabelo que se vai, mas a certeza que os anos passam e que não posso viver como se estivesse com 18 anos. Maturidade é algo que ultrapassa o símbolo de velhice anunciada, mas a certeza que a vida deve ser pensada e vivida ainda mais. Cristo nos deu vida em abundância!

Por isso tenho tentado viver apartir desta parte das Escrituras e não abro mão disto:

“Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras. Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e jamais falte o óleo sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo do sol.”

Eclesiastes 9.7-9

Maturidade é ser sábio, prudente e cheio de temor e amor de Deus enquanto se caminha nesta terra que cheira maldade.

Nisto eu dou minha vida!

Uma simples faixa de pedestres…

Hoje completam 40 anos do lançamento de “Abbey Road” dos Beatles. E em comemoração a tal fato histórico, milhares de pessoas foram até a frente do mítico estúdio para terem a oportunidade de tirar uma foto igualzinha a capa do penúltimo disco oficial do Fabfour.  Fiquei sentado olhando aquela cena com uma vontade enorme de tirar uma foto ali. Na verdade este foi um sonho que sempre nutri.

Quem me conhece sabe que minha banda predileta é o The Who. Nunca escondi isto de ninguém, mas os Beatles estão entre as 5 que mais me emocionaram e fizeram deste humilde ouvinte um grande apreciador do rock. Gosto muito dos Beatles. Os quatro garotos de Liverpool acompanham minha vida desde meus 12 anos quando ouvi o disco “A hard day’s night”. Disco simples, infantil e ousado! Todo mundo canta junto.

Ai os caras foram amadurecendo, foram se entregando ao mundo próprio das composições e lançaram verdadeiros marcos históricos em forma de discos. A trinca imperdível Rubber Soul(1965), Revolver(1966) e Sargeant Pepper(1967); definem o som dos Beatles: criatividade em arranjos e letras, tudo harmonizado pelo mestre/maestro George Martin.

Este disco que agora completa 40 anos mostra o amadurecimento de McCartney como letrista e arranjador que seguiu em sua carreira solo. Lennon também já dá demonstrações de que tudo caminha para uma ruptura com os companheiros.

Sei que se passaram 40 anos e muitos querem fazer o caminho dos Beatles: atravessar a rua e ter esta imagem imortalizada em uma foto. Tudo igual a capa do magistral álbum. Sei que eu fiquei, como já disse anteriormente, com a vontade de ter esta oportunidade um dia. De esperar o sinal fechar e pedir para alguém registrar o momento: eu, minha esposa e filhos atravessando aquela já desgastada faixa de pedestres. Colocar o quadro com a foto do tamanho de um vinil na sala e ficar olhando para ele de vez em quando. Isso seria legal, sabiam?

Ao mesmo tempo me peguei pensando sobre um outro caminho e fiquei intrigado. Jesus andou por este mundo e fez tantas coisas que neste terra não caberiam a quantidade suficiente de livros contando todos os fatos (Jo 21.25). Naquele momento fiquei olhando minha velha Bíblia, já surrada, e fiquei imaginando algo como a capa de “Abbey Road”.

Será que tenho olhado para ela com vontade de (re)viver tudo que ela diz? Não falo de forma legalista/moralista, mas de ter o prazer de refazer os caminhos do Mestre. De olhar para a mensagem de Cristo e ter nela a inspiração para a vida. Tudo isto da forma devida, sem ranços religiosos ou libertinagem. Tendo o foco nos pés do Mestre, em suas pegadas e palavras. Tudo isto moldando minha vida e de minha família.

Fiquei pensando novamente… Pensamentos que vão e vem a mente…

Como seria legal ter um quadro de minha família, incluindo os filhos que ainda não tenho, numa imitação da capa do clássico disco dos Beatles. Como seria bacana! Contudo, como quero que minha família tenha nos passos de Cristo sua inspiração. Uma família de imitadores do Cristo! Que ama a vida, tanto ama que a dá a própria vida por amor dos seus! Que olha o outro com amor e compaixão! Caminhando na vida, sentindo o mesmo calor e tendo convicção que há mudança espiritual e social por onde quer que passemos. Caminhar como Ele faz todo o sentido!

Tudo isto eu vi através de uma pequena faixa de pedestres. Tudo isto fez real sentido nas palavras daquele que atreveu-se a dizer que Ele era o único Caminho, Verdade e Vida. Nisto ele foi mais radical do que os Beatles. Nisto ele foi mais inspirador que toda a música. E nisto ele foi mais que poeta! Foi e é o único sentido de se atravessar esta vida para a vida eterna!

Á Ele toda Honra e Louvor!

Pedras clamando…

Sensato, sincero e sensível! Ótima percepção do mal que tem atingido a igreja em cheio!
Pena não ter nascido da reflexão de um dos nossos… Pelo menos que eu saiba!

Os negritos são de meu próprio punho!

Direto da Folha de São Paulo, como um verdadeiro soco na boca do estômago:

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Neopaganismo evangélico

Estava passeando pela TV quando dei com um culto da Igreja Mundial do Poder de Deus. Teria rapidamente mudado de canal se não tivesse acabado de ler o interessante livro de Ronaldo de Almeida, “A Igreja Universal e seus Demônios – Um Estudo Etnográfico” [ed. Terceiro Nome, 152 págs., R$ 28], que me abriu os olhos para o lado especificamente religioso dos movimentos pentecostais. Até então, via neles sobretudo superstição, ignorando o sentido transcendente dessas práticas religiosas.

No culto da TV, o pastor simplesmente anunciou que, dado o aumento das despesas da igreja, no próximo mês, o dízimo subia de 10% para 20%. Em seguida, começou a interpelar os crentes para ver quem iria doar R$ 1.000, R$ 500 e assim foi descendo até chegar a R$ 1.

Notável é que o dízimo não era pensado como doação, mas simplesmente como devolução: já que Deus neste mês dera-lhe tanto, cabia ao fiel devolver uma parte para que a igreja continuasse no seu trabalho mediador. Em suma, doar era uma questão de justiça entre o fiel e Deus.

Em vez de o salário ser considerado como retribuição ao trabalho, o é tão só como dádiva divina, troca fora do mercado, como se operasse numa sociedade sem classes. Isso marca uma diferença com os antigos movimentos protestantes, em particular o calvinismo, para os quais o trabalho é dever e a riqueza, manifestação benfazeja do bom cumprimento da norma moral.

Se o salário é dádiva, precisa ser recompensado. Não segundo a máxima franciscana “é dando que se recebe”, pois não se processa como ato de amor pelo outro. No fundo vale o princípio: “Recebes porque doastes”. E como esse investimento nem sempre dá bons resultados, parece-me natural que o crente mude de igreja, como nós procuramos um banco mais rentável para nossos investimentos.

O crente doa apostando na fidelidade de Deus. Os dísticos gravados nos carros, “Deus é fiel”, não o confirmam? Mas Dele espera-se reciprocidade, graças à mediação da igreja, cada vez mais eficaz conforme se torna mais rica. Deus é pensado à imagem e semelhança da igreja, cujo capital lança uma ponte entre Ele e o fiador.

Anticalvinismo
Além de negar a tradicional concepção calvinista e protestante do trabalho, esse novo crente não mantém com a igreja e seus pares uma relação amorosa, não faz do amor o peso de sua existência.

Sua adesão não implica conversão, total transformação do sentido de seu ser; apenas assina um contrato integral que lhe traz paz de espírito e confiança no futuro. Em vez da conversão, mera negociação. Essa religião não parece se coadunar, então, com as necessidades de uma massa trabalhadora, cujos empregos são aleatórios e precários?

Outro momento importante do livro é a crítica da Igreja Universal ao candomblé, tomado como fonte do mal. Essa crítica não possui apenas dimensões política e econômica, assume função religiosa, pois dá sentido ao pecado praticado pelo crente. O pecado nasce porque o fiel se afasta de Deus e, aproximando-se de uma divindade afro-brasileira, foge do circuito da dádiva. Configura fraqueza pessoal, infidelidade a Deus e à igreja.

Nada mais tem a ver com a ideia judaico-cristã do pecado original. Não se resolve naquela mácula, naquela ofensa, que somente poderia ser lavada pela graça de Deus e pela morte de Jesus, mas sempre requerendo a anuência do pecador.

Se resulta de uma fraqueza, desaparece quando o crente se fortalece, graças ao trabalho de purificação exercido pelo sacerdote. O fiel fraquejou na sua fidelidade, cedeu ao Diabo cheio de artimanhas e precisa de um mediador que, em nome de Deus, combata o Demônio. O exorcismo é descarrego, batalha entre duas potências que termina com a vitória do bem e a purificação do fiel.

Paganismo
Compreende-se, então, a função social do combate ao candomblé: traduz um antigo ritual cristão numa linguagem pagã. Os pastores dão pouca importância ao conhecimento das Escrituras, servem-se delas como relicário de exemplos. Importa-lhes mostrar que o Diabo, embora tenha sido criado por Deus, depois de sua queda se levanta como potência contra Deus e, para cumprir essa missão, trata de fazer o mal aos seres humanos.

O mal nasce do mal, ao contrário do ensinamento judeu-cristão que o localiza nas fissuras do livre-arbítrio. Adão e Eva são expulsos do Paraíso porque comeram o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e assim se tornam pecadores, porque agora são capazes de discriminar os termos dessa bipolaridade moral.

Essa teologia pentecostal se aproxima, então, do maniqueísmo. Como sabemos, o sacerdote persa Mani (também conhecido por Maniqueu), ativo no século 3º, pregava a existência de duas divindades igualmente poderosas, a benigna e a maligna. Isso porque o mal somente poderia ter origem no mal. A nova teologia pentecostal empresta o mesmo valor aos dois princípios e, assim, ressuscita a heresia maniqueísta, misturando o cristianismo com a teologia pagã.

José Arthur Giannotti, na Folha de S.Paulo.


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