No taxi, a caminho do aeroporto, vem aquela sensação de que algo foi esquecido. Faço uma revisão rápida e parece que tenho tudo o que preciso comigo. Acho que foi mais um daqueles momentos nos quais parece que nossa alma está correndo atrás do corpo. A velocidade de nossos dias vai nos deixando cada vez mais divididos, distraídos e dispersos. Já no aeroporto percebo que preciso fazer alguns telefonemas antes de embarcar, afinal preciso aproveitar o tempo que vai escorregando entre os dedos. Telefonemas feitos, embarque realizado, cinto de segurança devidamente colocado, tempo para uma oração. Oro pelos que ficam, oro pelos que irei encontrar e obviamente, oro para que eu, e os que estão ao meu redor, possamos chegar ao destino.
Já nos ares a visão do céu reduz de maneira significativa a agitação interna, agora as muitas horas de voo me permitem abrir espaço para a agenda interna, a agenda do coração, para a agenda da vida interior. Reconheço o quanto a agitação de nosso mundo exterior determina nossa vida interior, muitas vezes esta turbulência externa quase que nos divide por completo. Alma, corpo e espírito se fragmentam em uma agenda que nos arrasta e nos prende nos agitos de um mundo onde as necessidades nunca cessam.
Durante o voo leio nos jornais sobre o aniversário do presidente Lula, imagino a celebração, os abraços, os amigos e os votos de longa vida feliz. Aterrizamos, malas na mão, estou a caminho de casa! De novo no taxi, atento as notícias, ouço que o presidente agora enfrenta um novo desafio, um câncer que se mantem ativo em seu corpo. Alguém acostumado a uma vida tão intensa, com muitos compromissos e contatos (com uma agenda mil vezes mais agitada do que a minha), que deve enfrentar desafios enormes para manter seu mundo externo em sintonia com o seu mundo interno, agora terá que mudar tudo em funçaõ desta nova realidade de seu mundo interno. Agora os amigos se aproximam dele, não mais para celebrar o aniversário, os abraços e votos solidários é para que ele pronto se recupere. Toda “loucura de agenda”, toda a pressão do mundo externo agora fica em segundo plano, sua agenda externa será definida por uma realidade interna, mais profunda e com potencial de risco.
Muitas vezes sinto que só atentamos para o nosso universo interno, para nossa vida interior, quando este nos coloca em situação de risco. Vamos vivedo nossas vidas de tal forma que não damos a menor bola com o que está acontecendo em nossa alma. Vamos na agitação do dia a dia, arrastando nossas almas para nossas importantes agendas apressadas e como resultado temos uma vida cheia e insatisfeita. Por que será que somente aquilo que não vai bem em nosso mundo interno físico tem a capacidade de mudar nossas vidas? Por que será que os anseios de nossos corações não provocam a mesma mudança externa em nossas vidas? Por que será que aquilo de bom que pode ocorrer em nosso espírito não tem o mesmo poder de determinar a forma como nossa vida exterior se organiza e se expressa?
Enquanto escrevo este texto, algo maravilhoso está ocorrendo dentro de mim que me permite viver este momento. Enquanto você está lendo este texto o mesmo está acontecendo em você! Eu e você estamos respirando! Quando não damos a devida atenção a esta capacidade que nos foi dada, quando tratamos isso como algo simples e comum, deixamos de nos maravilhar com a vida e nos transformamos em seres ingratos pelo dom da vida. Por muitos séculos alguns rabinos tem acreditado que o som da respiração é o som do nome santo de Deus, nome que eles não pronunciam por respeito e reverência. O nome de Deus em Hebraico e formado pelas seguintes consoantes Y, H, V, H que se pronunciam como Yod, Heh, Vav, Heh , de onde podemos chegar ao nome Yahweh, Yahveh. Assim, enquanto eu e você respiramos estamos pronunciando o nome de Deus o tempo todo, Yod, Heh, Vah, Heh. Nossa respiração é uma oração, oramos o nome de Deus, respiramos o nome de Deus!
De que maneira esta realidade interna muda nossa vida externa? De que maneira esta realidade interna interfere na forma como vemos as demais pessoas? De que maneira esta realidade interna deve mudar nossa forma de viver a nossa vida? Por que será que somente as notícias ruins, como um câncer, mudam nossa forma de viver, nossas prioridades e a forma como vemos nossa vida e a vida dos demais seres humanos?
A agitação de nosso mundo externo nos torna desatentos as mensagens mais profundas que nossa alma está indicando. Existe uma realidade interior em nossas almas que devem ser tomadas em conta, com muito mais seriade do que estes compromissos de agenda aos quais nos dedicamos com tanto empenho. C.S. Lewis (autor dos livros da série Narnia) disse certa vez que, a fome (nossa realidade interna) nos indica que existe algo externo a nós que pode satisfazer esta necessidade interna. Pois bem, quando vamos começar a levar a sério os desejos mais profundos de nosso coração? Quando vamos aprender a harmonizar a nossa vida de tal forma que Corpo, Alma e Espírito estejam integrados? Quando vamos permitir que nossa vida interior nos indique a forma como devemos viver nossa vida exterior?
Jesus Cristo certa vez disse a mulher com quem conversava a beira de um poço: “Quem beber desta água vai ficar com sede outra vez. Quem beber da água que eu der nunca mais terá sede- nunca. A água que ofereço é como um poço artesiano interior, jorrando vida para sempre”. Nada melhor para um coração sedento do que beber desta água que oferece Jesus, não é mesmo? Isso me lembra uma linda música do Paulinho da Viola, escrita em 1972, chamada Dança da solidão, que em determinado momento diz assim em sua poesia:
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…
Quando vem a madrugada
Meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola
Contemplando a lua cheia…
Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura
Oh!…
Assista o vídeo da música com Paulinho da Viola e Marisa Monte
Bem, meus amigos e minhas amigas. Estou aqui compartilhando minhas ideias com vocês, sobre a necessidade de que estejamos atentos ao nosso mundo interno. Atentos aos anseios de nosso coração, de nossa alma , de nosso espírito, ao anseio do profundo que existe em nós. Tudo isso veio a tona pela notícia deste novo desafio do presidente Lula, a quem desejo uma pronta recuperação, assim como a todos os enfermos deste pais, entre os quais tenho muitos amigos e amigas, e por quem oro. Animo a todos a que não permitam que a agitação do mundo exterior determine sua forma de vida, que não permitam ser partidos em pedaços por este mundo fragmentado que vivemos. Olhem com carinho para dentro de vocês e permitam que a agenda que nasce de seu coração tenha protagonismo em sua forma de viver. Oro para que nesta semana todos possam beber desta água que nos oferece Jesus e cantar confiantes, com Paulinho da Viola, …apesar de tudo existe uma fonte de água pura, quem beber daquela água não terá mais amargura!
Um abraço carinhoso!
